
O iFood anunciou um plano de R$ 24 bilhões em investimentos no Brasil até março de 2027, representando uma alta de 41% comparado ao ciclo anterior. O pacote foi apresentado durante o evento iFood Move, em São Paulo, e marca uma resposta estratégica à entrada de competidores chineses no mercado de delivery brasileiro. As principais frentes envolvem mais de R$ 2 bilhões em inteligência artificial, expansão de entregas ultrarrápidas de até 20 minutos e novos serviços logísticos para lojas que operam fora do aplicativo.
Inteligência artificial como núcleo da estratégia
O iFood destinará mais de R$ 2 bilhões em tecnologia e inovação, com ênfase em agentes de inteligência artificial e no desenvolvimento do Large Commerce Model (LCM), criado em parceria com a Prosus. Este modelo representa uma aposta central na competição por frequência de uso e previsão de comportamento do consumidor.
O LCM funciona mediante treinamento com dados gerados internamente na plataforma, incluindo buscas, cliques, compras, cancelamentos e avaliações. O objetivo é interpretar com maior precisão a intenção de compra do usuário e melhorar recomendações e notificações personalizadas. Em um mercado onde as plataformas disputam não apenas o volume de pedidos, mas também a capacidade de antecipar desejos de consumo, essa abordagem reflete a tendência setorial de usar modelos de IA especializados em contextos comerciais específicos, algo que vai além de soluções generalizadas.
- Mais de R$ 2 bilhões destinados a tecnologia e inovação
- Desenvolvimento do Large Commerce Model em parceria com Prosus
- Treinamento com dados internos de buscas, cliques, compras, cancelamentos e avaliações
- Foco em melhorar recomendações e notificações personalizadas
Expansão de serviços de entrega e logística
O iFood Turbo, modalidade de entrega em até 20 minutos, será ampliado para todas as capitais brasileiras e passará a atender novos segmentos além de alimentos: farmácias, supermercados e pet shops. Essa diversificação busca aumentar a recorrência de pedidos e atingir diferentes ocasiões de consumo.
Em paralelo, o Hits, categoria com refeições de preço mais baixo e sem taxa de entrega, será expandido para cidades médias. Essas duas iniciativas funcionam como estratégias complementares: o Turbo atrai consumidores por velocidade, enquanto o Hits atrai por acessibilidade econômica.
Um serviço inédito no portfólio é o iFood Envios. Neste modelo, lojas podem vender através de seus próprios sites ou canais e utilizar a rede logística do iFood para entregar em até uma hora, sem necessidade de o consumidor comprar dentro do aplicativo. A empresa pretende conectar esses pedidos aos aproximadamente 600 mil entregadores cadastrados, transformando sua infraestrutura logística em um serviço terceirizável para o varejo.
Diversificação de receita além do delivery
O iFood Pago, braço financeiro da companhia, receberá R$ 5 bilhões e ampliará principalmente a oferta de crédito para restaurantes. Adicionalmente, R$ 1 bilhão será destinado ao iFood Benefícios. A empresa também investe em expansão de categorias como supermercados, farmácias, pet shops, bebidas, conveniência e presentes, reduzindo a dependência de receitas exclusivamente ligadas a alimentos.
Segundo o iFood, a plataforma atualmente conecta 65 milhões de consumidores, 500 mil estabelecimentos e 600 mil entregadores, com mais de 180 milhões de pedidos mensais e operação em mais de 2 mil municípios brasileiros.
Contexto competitivo e pressões de mercado
O anúncio ocorre em momento de intensificação da concorrência. A Keeta, controlada pela chinesa Meituan, expande sua presença no Brasil, enquanto a 99Food, da também chinesa DiDi, retornou ao segmento de delivery e busca conquistar restaurantes e consumidores. A disputa já alcançou instâncias regulatórias, com processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e na Justiça envolvendo questões sobre contratos de exclusividade e práticas comerciais.
Em entrevista à Folha, o CEO Diego Barreto reconheceu que a entrada de novos competidores torna 2026 mais desafiador para o iFood, mas reafirmou que a estratégia segue baseada em inovação e expansão de produtos. O plano de R$ 24 bilhões pode ser interpretado como resposta direta a essa pressão, buscando consolidar vantagens tecnológicas e de cobertura geográfica que empresas como Keeta e 99Food ainda estão desenvolvendo.
Análise Panorama IA
O investimento massivo em inteligência artificial sinaliza que o iFood reconhece a IA não como diferencial tecnológico marginal, mas como competência central de negócio. A aposta no Large Commerce Model específico reflete uma tendência setorial de desenvolver modelos de IA treinados com dados proprietários, em vez de depender exclusivamente de soluções genéricas. Essa abordagem alinha-se a movimentos que reconhecem a governança de agentes de IA como competência de negócio, não apenas tecnológica.
Para investidores e stakeholders, o plano indica que o iFood adota estratégia ofensiva contra rivais chineses em vez de defensiva. A diversificação de serviços (Envios, Pago, Benefícios, novos segmentos) reduz riscos de commoditização do delivery tradicional, historicamente marcado por margens comprimidas e competição acirrada por preço.
As limitações da estratégia incluem a execução: R$ 24 bilhões devem ser desembolsados até março de 2027, um horizonte de apenas seis meses a partir do anúncio de setembro de 2026, o que sugere que parte dos recursos já estava alocada. Além disso, enquanto o iFood investe em IA para personalização, competidores chineses trazem expertise em logística ultraeficiente e modelos de negócio próprios, criando dinâmicas diferentes das que enfrentava antes. Por fim, regulações ainda em discussão no Cade podem afetar algumas táticas comerciais da empresa.
Fonte: Canaltech






