
O Google anunciou na quinta-feira (24 de setembro) que vai dobrar sua infraestrutura técnica no Brasil até 2030, ampliando capacidade de processamento, armazenamento e computação de inteligência artificial de alto desempenho. Apesar do cenário favorável — incluindo a aprovação do Redata, regime que oferece incentivos tributários para novos data centers — a empresa não confirma a construção de uma instalação desse porte em território nacional.
O que falta segundo o Google
Durante o Google Cloud Summit Brasil, em coletiva de imprensa, Eduardo López, presidente do Google Cloud para a América Latina, respondeu diretamente sobre os requisitos para um novo data center brasileiro. Com tom de brincadeira inicial, López questionou por que os investimentos atuais não seriam considerados grandes. Na sequência, ele apresentou o critério decisivo: demanda.
“Todo o nosso desenho de investimento tem a ver com a demanda”, afirmou López. Segundo o executivo, a decisão de dobrar a capacidade representa uma aposta no crescimento do uso das plataformas Google Cloud e ferramentas de IA pelas empresas brasileiras. Isso significa que, para justificar um novo data center de grande porte, seria necessário demonstrar aumento substancial na demanda por esses serviços no mercado brasileiro.
Cenário regulatório e ambiental favorável
O momento atual reúne fatores que facilitariam investimentos em infraestrutura digital. Em 15 de setembro de 2026, o Governo Federal sancionou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que reduz a carga tributária sobre equipamentos destinados à implantação, modernização e ampliação de centros de dados.
O programa exige contrapartidas significativas das empresas beneficiadas:
- Capacidade local: Destinar ao mercado brasileiro no mínimo 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados instalada com incentivos do Redata
- Energia renovável: Atender toda a demanda contratada de eletricidade com fontes renováveis ou de baixa emissão
- Eficiência hídrica: Cumprir critérios rigorosos de uso e gestão de água
López avaliou positivamente o impacto do Redata: “Eu acho que o Redata ajuda bastante no que é custo operacional das infraestruturas, especialmente quando compramos componentes”. A exigência energética também encontra alinhamento com os projetos de descarbonização que o Google vem desenvolvendo no Brasil.
A empresa anunciou recentemente sua maior compra de remoção de carbono até hoje, associada a um projeto da Terradot em fazendas de arroz no Rio Grande do Sul. O compromisso prevê eliminar o equivalente a 1 milhão de toneladas de CO2 até 2030 e remover permanentemente outro 1 milhão de toneladas até 2040. Embora não envolva construção de data centers, esse investimento aborda uma questão central: como ampliar capacidade computacional exigida pela IA sem aumentar proporcionalmente as emissões de carbono.
Investimentos anunciados vão além do data center
O Google já começou a materializar a duplicação de infraestrutura. A partir de 15 de outubro, o Gemini Enterprise terá processamento local de dados do Gemini 3.5 Flash no Brasil. Além disso, máquinas virtuais G4 equipadas com GPUs Nvidia RTX Pro 6000 Blackwell já estão disponíveis na região de nuvem de São Paulo. Essas mudanças são especialmente relevantes para empresas que precisam manter dados e processamento dentro do território brasileiro por exigências regulatórias, segurança ou soberania digital.
Importante ressaltar que dobrar infraestrutura não significa necessariamente construir um novo campus de data center. López destacou que aumentar capacidade computacional dentro do Brasil é apenas uma parte da estratégia de infraestrutura do Google.
Conectividade e cabos submarinos complementam a estratégia
López explicou que dois elementos são igualmente críticos para a estratégia de expansão: dados locais e conectividade global. Além de infraestrutura física dentro do país, a empresa investe em cabos submarinos que ligam o Brasil à rede global do Google, reduzindo latência e tempo de circulação de dados entre regiões.
O Google já investiu em cabos submarinos como Firmina, Tannat, Curie e Humboldt na América Latina, simultaneamente aos investimentos em regiões de nuvem e data centers no continente. “Nós trabalhamos as duas coisas sempre: a conectividade, com os cabos submarinos que chegam ao Brasil, e nossa infraestrutura no Brasil para dar capacidade de processamento e soberania de dados aqui”, afirmou López.
Essa abordagem dupla permite que o Google ofereça tanto processamento local (reduzindo latência para usuários brasileiros) quanto conectividade global (permitindo que dados circulem eficientemente pela rede mundial).
Análise Panorama IA
O anúncio do Google revela uma estratégia clara mas não necessariamente acelerada para a região. A empresa duplicará infraestrutura baseada em demanda real, não em incentivos disponíveis. Isso significa que, apesar do Redata oferecer vantagens tributárias e do cenário brasileiro ser objetivamente mais favorável que anos anteriores, a decisão por um novo data center continuará vinculada ao crescimento comprovado do uso de serviços de cloud e IA por empresas nacionais.
Para os interessados em soberania digital e processamento local, a notícia é relevante: o Google reafirma comprometimento com o Brasil através de expansão de capacidade até 2030, começando com processamento local do Gemini a partir de outubro. O Gemini ganha processamento local no Brasil e fica mais rápido a partir de outubro, ampliando opções para empresas que precisam manter dados e computação dentro do território.
Porém, há limitações importantes. Primeiro, dobrar infraestrutura não é garantia de novo data center — pode significar expansão em instalações existentes ou através de parcerias. Segundo, a demanda por computação de IA ainda precisa crescer substancialmente entre empresas brasileiras para justificar investimento de porte ainda maior. Terceiro, dados do governo indicam que 60% das cargas digitais brasileiras continuam sendo processadas fora do país, sugerindo que adoção de infraestrutura local ainda é incipiente.
O que observar: se a demanda por Google Cloud e ferramentas de IA crescer significativamente entre empresas brasileiras nos próximos 12 a 18 meses, as chances de confirmação de novo data center aumentam. Enquanto isso, investimentos em processamento local e cabos submarinos oferecerão alternativas para quem precisa de latência baixa e conformidade regulatória.
Fonte: Canaltech




