
A corrida pela inteligência artificial entre Estados Unidos e China intensifica-se enquanto laboratórios chineses reduzem a distância tecnológica. Mas modelos como DeepSeek, Alibaba Qwen e Z.ai já apresentam os mesmos riscos de segurança atribuídos a ChatGPT e Claude? A resposta, segundo especialistas, ainda é não — mas a situação pode mudar rapidamente conforme esses sistemas se tornam mais capazes.
O avanço rápido dos modelos chineses
A aproximação entre os dois países ocorreu principalmente nos últimos dois anos. Uma análise da Reuters publicada em setembro apontou que sistemas chineses estão apenas ligeiramente atrás dos principais modelos americanos em algumas capacidades, embora nenhuma métrica única determine qual país tem a “melhor IA”.
Os benchmarks — testes de comparação padronizados — ajudam a visualizar essa aproximação. Submetem modelos a testes de raciocínio, matemática, programação e outras tarefas, porém precisam ser interpretados individualmente. Uma IA que lidera em programação pode ter pior desempenho em outro tipo de problema.
Três empresas chinesas principais disputam posições de destaque:
- Alibaba: apresentou em fevereiro o Qwen 3.5, voltado para agentes de IA capazes de executar tarefas em aplicativos e dispositivos. Em testes selecionados divulgados pela própria empresa, superou versões de GPT, Claude e Gemini, embora resultados dos desenvolvedores não sejam suficientes para estabelecer superioridade geral.
- DeepSeek: lançou em setembro o V4.1-Flash, versão focada em respostas mais rápidas e maior capacidade de processamento. A startup, fundada em 2023, ampliou investimentos em infraestrutura, chips e profissionais especializados.
- Z.ai: antiga Zhipu AI, responsável pela família de modelos GLM, que aparecem entre os principais em testes independentes de inteligência e raciocínio.
Em avaliações independentes da Artificial Analysis, diferentes versões desses modelos disputam primeiras posições, apesar de líderes variarem conforme a metodologia.
Outra vantagem chinesa está nos modelos abertos. Um relatório da Mozilla publicado em setembro estimou que os melhores modelos chineses dessa categoria estavam cerca de quatro meses atrás dos sistemas fechados americanos em determinadas métricas, oferecendo uma oportunidade maior de descentralização de acesso.
Estratégia além dos chatbots
A China não se limita a criar concorrentes do ChatGPT. O presidente Xi Jinping passou a defender publicamente modelos de IA abertos e maior cooperação internacional na tecnologia.
Em julho, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, Xi pediu incentivo a código aberto, compartilhamento de tecnologia e maior participação de países em desenvolvimento na construção de infraestrutura de IA. No encontro do BRICS de setembro, propôs uma zona de código aberto para inteligência artificial entre os integrantes do bloco.
Dentro do país, prioridades adicionais incluem:
- Agentes autônomos: sistemas capazes de planejar tarefas, tomar decisões e operar outras ferramentas com supervisão humana limitada. A Huawei estima que essa tecnologia terá participação crescente no processamento de IA, e a China já trabalha em normas específicas de segurança para esses sistemas.
- Robótica: a startup Spirit AI já possui dezenas de humanoides em linhas de produção de empresas como CATL e JD.com, trabalhando para melhorar a capacidade dos equipamentos em interpretar comandos e executar atividades no mundo físico.
- Independência tecnológica: a Huawei desenvolve a linha Ascend de chips e sistemas capazes de combinar grande quantidade de processadores para compensar limitações individuais do hardware chinês, reduzindo dependência das restrições americanas ao acesso de chips Nvidia.
Riscos ainda não são equivalentes
Em tese, modelos chineses podem apresentar riscos semelhantes aos americanos conforme ganham capacidades comparáveis, principalmente em áreas como agentes autônomos, programação e cibersegurança. Porém, isso ainda não significa que ChatGPT, Claude e seus concorrentes chineses estejam no mesmo estágio.
Eric Xu, presidente rotativo da Huawei, afirmou este mês que os desenvolvedores chineses talvez ainda não tenham modelos avançados o suficiente para observar os mesmos riscos de segurança relatados pelas principais empresas americanas.
Pedro Burgos, especialista e consultor em inteligência artificial ouvido pela fonte, compartilha essa visão. Para ele, a China ainda está atrás na fronteira tecnológica, apesar da velocidade dos avanços. Burgos associa parte dessa diferença à disponibilidade de poder computacional. As restrições de hardware dificultam o avanço dos laboratórios chineses, enquanto empresas como Huawei tentam reduzir a dependência estrangeira com processadores próprios.
Contudo, o especialista não vê essa distância como permanente. “A China vai continuar avançando”, afirmou. Para Burgos, Pequim também deve ampliar a regulação conforme seus modelos se tornarem mais capazes, embora por razões possivelmente diferentes das que motivam empresas e governos ocidentais. “Eu acho que a China possivelmente vai poder começar a regular e frear, mas por razões diversas das razões americanas”, disse.
Análise Panorama IA
A questão sobre equivalência de riscos entre IAs chinesas e americanas revela uma dinâmica mais sutil do que a simples comparação técnica. O fato de sistemas chineses ainda não apresentarem os mesmos riscos de segurança não é uma garantia permanente, mas um reflexo do estágio de desenvolvimento atual.
Importa observar que a corrida não ocorre em paralelo idêntico. Enquanto empresas americanas concentram alguns dos modelos mais avançados em capacidades brutas, a China amplia a oferta de modelos abertos e constrói uma cadeia tecnológica menos dependente de hardware estrangeiro. Essa abordagem descentralizada pode criar dinâmicas de risco diferentes no futuro.
Para reguladores e especialistas em segurança de IA, o ponto crítico é que ganho de capacidade técnica não ocorre linearmente em riscos. Agentes autônomos e sistemas de cibersegurança podem apresentar problemas de segurança distintos de chatbots, independentemente de qual país os desenvolve. A China já trabalha em normas específicas para esses sistemas, sinalizando consciência sobre o tema.
Quanto ao que observar a seguir: a velocidade com que modelos abertos chineses reduzem a distância em relação aos sistemas fechados americanos pode ser mais relevante para segurança global do que a distância absoluta entre os melhores modelos de cada país. Uma IA de capacidade média acessível globalmente pode apresentar riscos diferentes de um sistema avançado sob controle centralizado.
Contexto de rivalidade tecnológica
A preocupação do presidente dos EUA, Donald Trump, ao afirmar “quem vencer com a IA, vence”, reflete mais do que comparações técnicas. Engloba questões geopolíticas, acesso a infraestrutura e modelo de distribuição de tecnologia.
A disputa ocorre enquanto os dois países seguem trajetórias diferentes em filosofia e aplicação de IA. Os EUA mantêm concentração em empresas privadas com modelos avançados mas controlados, enquanto a China avança em modelos abertos, robótica e agentes autônomos com diferentes estruturas regulatórias e objetivos políticos.
Essa diferença de trajetória pode ser mais importante para entender riscos futuros do que qualquer métrica individual de desempenho atual.
Fonte: Canaltech







